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sábado, 7 de junho de 2014

Cinco perguntas aleatórias pra um prêmio Nobel - Entrevista com David Baltimore

Como alguns de vocês sabem, atualmente sou Pesquisadora Estudante Visitante no Instituto de Tecnologia da Califórnia (AKA Caltech) nos Estados Unidos. Estando aqui, não podia perder a oportunidade de entrevistar um dos maiores nomes da Biologia que fica literalmente no prédio ao lado, e compartilhar com vocês aqui as suas opiniões.

Sim, entrevistei nada mais nada menos que David Baltimore, prêmio Nobel de Fisiologia de 1975, junto com Howard Temin e Renato Dulbecco, pela descoberta da enzima Transcriptase Reversa, uma enzima que apenas destruiu o chamado Dogma Central da Biologia. Coisa pouca, e tudo isso com apenas um experimento (quantos experimentos eu já fiz na minha vida???).

Dogma Central da Biologia antes e depois de David Baltimore

David Baltimore não parou no Nobel. Ele continuou colecionando descobertas e feitos, como NFkappaB (um fator de transcrição super importante em células do sistema imune), foi o primeiro a clonar o genoma do vírus da pólio (junto com Vincent Racaniello), criou o sistema de classificação de vírus mais usado até hoje (as classes de Baltimore), participou do comitê que criou as regras para uso de DNA recombinante, e hoje é pioneiro no uso de terapia gênica para tratamento do câncer e HIV. Além de descobertas, Dr. Baltimore também coleciona no currículo instituições de renome como MIT, Caltech (presidente emérito), Rockfeller (presidente emérito), Whitehead Institute, entre outras.

Eu queria fazer algo curto e tentar me focar em 5 questões interessantes (que não se sobrepusessem a outras mil entrevistas que ele já deu). Não foi fácil (coloca "Baltimore interview” no Google pra você ver!), e no final eu fiquei com 5 perguntas superinteressantes, mas meio desconexas. Então acho que podemos chamar essa entrevista de 5 questões aleatórias para David Baltimore!

Abaixo vc pode ver o transcrito da entrevista (meu sistema de gravação falhou bem na hora da entrevista, que legal! #pagandomicoprobaltimore, então fizemos uma entrevista oldschool).

Entrevista em Português:

Eu: Você, Temin e Dulbecco receberam um prêmio Nobel pela a descrição da transcriptase reversa, uma enzima tão incomum que quebrou o antigo dogma central da biologia. Como você se sentiu, no momento, quando você percebeu que você estava testemunhando algo que era contrário a uma noção tão forte na ciência, que era chamado de dogma? Você duvidou de si mesmo? Você teve que reunir coragem ou algo parecido?

Baltimore: Não, eu não tive. Foi bioquímica simples. Eu tinha um molde, que nesse caso era RNA e não DNA, e verificava a incorporação de nucleotídeos e polimerização in vitro, por isso não havia espaço para erros e eu estava muito confiante de que os resultados estavam corretos. Eu estava trabalhando em bioquímica há 10 anos e como isso foi publicado em simultâneo com o laboratório de Temin não havia muito espaço para discussão, foi um experimento fácil e simples, então, em resumo, foi um prêmio nobel em 1 experimento.

Eu: Você fez parte da conferência de Asilomar que definiram as diretrizes para uso seguro do DNA recombinante, que são usadas até hoje para a fabricação de todos os produtos biofarmacêuticos mais avançados. Qual você acha que é a próxima fronteira na biomedicina? E por quê?

Baltimore: Eu não vejo uma barreira tão alta quanto havia na época com o DNA recombinante, e no momento podíamos ver o caminho à frente e acho que ainda podemos vê-lo. Algumas pessoas diriam que o próximo passo na biomedicina é a biologia sintética. Utilizar a biologia sintética para modificar o comportamento celular. Sabemos muito de biologia celular e estamos aprendendo ainda mais. Eu acho que se assemelha muito à química há algum tempo atrás. No passado, a química era uma caixa preta e o desenvolvimento desta ciência e a aprendizagem das interacções levou ao desenvolvimento de novos e melhores produtos químicos. E agora sabemos muito sobre a biologia por trás do comportamento celular, aprendemos muito e agora podemos incorporar esse conhecimento em uma abordagem médica.

Eu: Você tem uma extensa lista de publicações. Na sua opinião, qual é o melhor trabalho / artigo que publicou?

Baltimore: Bom, tem que ser o da transcriptase reversa, é o artigo com maior impacto e foi o ápice de 10 anos de esforço de trabalho em bioquímica e virologia. E foi um trabalho muito simples.

Eu: Normalmente, o maior impacto vem dos trabalhos mais simples.

Baltimore: Mas nem sempre. Eu olho para a lista de prêmios Nobel, ano após ano, e o número de pessoas que receberam o prêmio por um experimento simples e direto é realmente muito pequeno. Quase todos eles são o resultado de um compromisso de vida. O vencedor do ano passado, Randy Schekman, vem trabalhando há 20 anos em abordagens ao tráfico de membrana, tanto ele quanto os outros destinatários, (James E. Rothman, e Thomas C. Südhof), um trabalhando in vitro, o outro geneticamente, de modo não foi o resultado de um experimento.

Eu: O seu ex-aluno, Vincent Racaniello, é o maior porta-voz em divulgação de ciência no mundo. Quais são seus pensamentos sobre a divulgação e popularização da ciência?

Baltimore: Ele é certamente o mais importante em virologia. Seu blog recebe muitos acessos todos os dias. Minha esposa é uma, ela é virologista também. Eu acho que a popularização da ciência é extremamente importante, fornecer o acesso ao público em geral do progresso que está sendo feito na ciência, e por muitas razões. Primeiro porque eles pagam por isso, mas também porque, se você quiser um apoio continuado, tanto financeiramente, mas também na política, você precisa popularização da ciência.
Há um monte de gente boa fazendo divulgação da ciência e eu acho que um dos maiores avanços no campo tem sido um programa de TV chamado "Your Inner Fish". É um show de três horas dividido em três partes, onde você pode ver como os seres humanos evoluíram e os reflexos da evolução em nossos corpos, então a primeira parte mostra um peixe que se aventurou na terra, e as outras partes são chamadas de seu réptil interior e seu macaco interior.
É muito bem feito, incrível. E Neil Shubin é a própria imagem do cientista.
A segunda é Cosmos, de Carl Sagan, e ele foi atualizado recentemente por Neil deGrasse Tysson. Há também os livros de Sean Caroll. Então, em resumo, há um monte de gente fazendo popularização da ciência e eles fazem isso muito bem e de forma consciente.

Me: Não há como negar que você tem uma carreira muito bem sucedida. Que conselho você daria a alguém que quer seguir seus passos?

Baltimore: Estou muito orgulhoso e feliz com a minha carreira. Mas eu nunca tive um objetivo específico em mente, eu sempre senti uma forte afinidade com as perguntas e materiais da biologia e minha maior força motriz é a alegria da descoberta. Isso é verdade desde que eu fui a um programa de verão do ensino médio e descobri que eu poderia fazer experimentos originais na biologia, e este é o impulso que tem vindo a impulsionar a minha carreira desde então.


Entrevista original em inglês:

Me: You, Temin and Dulbecco received a Nobel prize for the description of the reverse transcriptase, an enzyme so unusual that broke the former central dogma of biology. How did you felt, at the time, when you realized that you were witnessing something that was contrary to such a strong notion in science that was actually called dogma? Did you doubt yourself? Did you had to gather courage or something like that?

Baltimore: No, I didn't. It was straightforward biochemistry. I had the template, that in that case was RNA and not DNA, and I would check the nucleotide incorporation and polymerization in vitro, so there were no mistakes and I was very confident the results were correct. I had been working in biochemistry for 10 years and as it got published simultaneously with Temin’s lab there were not much space for discussion, it was an easy and simple experiment, so in summary it was a nobel prize over 1 experiment.

Me: You were part of the Asilomar conference that tailored the guidelines of the safely use of recombinant DNA, that is used until today for the manufacture of all the most advanced biotechnological pharmaceuticals. What do think is the next frontier in biomedicine? And why?

Baltimore: I don’t see a barrier as high as there was at the time for recombinant DNA, and at the time we could see the path ahead and I think we can still see it. Some people would say that the next step in biomedicine is synthetic biology. To use synthetic biology to modify cell behavior. We know much of cell biology and we are learning even more. I think it resembles a lot chemistry some time ago. In the past chemistry was a blackbox and the developing of this science and the learning of the interactions led to the development of new and better chemicals. And now we know a lot of the biology behind cell behavior, we learnt a lot and now we can incorporate this knowledge into a medical approach.

Me: You have a very extensive publication record. In your opinion, what is the best work/paper you published?

Baltimore: Well, it has to be the Reverse Transcriptase one, its the one with the greatest impact and was the culmination of 10 years of effort of work in biochemistry and virology. And it was a very straightforward paper.

Me: Usually the biggest impact comes from simple straightforward work.

Baltimore: But not always. I look at the list of nobel prizes year after year and the number of recipients that received the prize over a  straighfoward experiment is actually very small. Almost all of them is the result of a lifetime commitment. So the last year winner Randy Schekman, he’s been working for 20 years in approaches to membrane trafficking, both he and the other recipients, (James E. Rothman, and Thomas C. Südhof), one working in vitro, the other genetically, so it wasn’t the result of 1 experiment.

Me: Your former student, Vincent Racaniello, is the greatest spokesman of science divulgation in the world. What are your thoughts about science divulgation and popularization?

Baltimore: He’s certainly the most important in virology. His blog receives lots of access every day. My wife accesses it, she’s a virologist as well. I think science popularization is extremely important, to provide the general public access to the progress being done in science for many reasons. First because they pay for it, but also because, if you want continued support, both financially but also in politics you need science popularization.
There’s a lot of good people doing science divulgation and I think one of the greatest advances in the field has been a public tv show called Your Inner Fish. Is a 3 hour show divided in three parts where you can see how the humans have evolved and the reflections of the evolution on our bodies, so the first part shows a fish that ventured on the ground, and the other parts are called your inner reptile and your inner monkey.
It’s beautifully done, amazing. And Neil Shubin is the very image of the scientist.
The second one is Cosmos, by Carl Sagan, and it’s been updated recently by Neil de Grasse Tysson. There’s also the books by Sean Caroll. So in summary, there’s a lot of people doing  science popularization and they do it very well and consciously.

Me: There is no denying that you have a very successful career. What advice would you give to anyone that wants to follow your footsteps?


Baltimore: I’m very proud and happy with my career. But I never had a particular aim in mind, i just always felt a strong affinity with the questions and materials of biology and the biggest driving force was the joy of discovery. That was true ever since I went to a high school summer program and found out that I could do original experiments in biology, and this is the impetus that has been driving my career since then.

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