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sábado, 28 de junho de 2014

Seu cérebro é um processador, não um HD! A melhor dica de produtividade que insistimos em ignorar.

Hoje vou falar de um tema um pouco diferente pro blog, mas é algo que já venho lendo há um bom tempo e achei que valia a pena abordar por aqui: Produtividade.

Todos nós queremos ser produtivos e conquistar nossas metas, e existem diversas estratégias pra isso. No geral, nenhuma estratégia funcionará pra todos, mas existem aquelas que não funcionam pra ninguém (e geralmente é aquela mais usada!). Além disso, a maior parte de textos e dicas sobre produtividade vem de um contexto muito corporativo, que não necessariamente se adapta a um contexto acadêmico. Então, olha só que sorte, pra você que tá trabalhando (porque pra mim é trabalho!) na sua iniciação científica, no seu mestrado ou doutorado, eu já separei as dicas que melhor se encaixam nessa situação! De mão beijada! Mais fácil impossível! E vou complementar com algumas dicas que eu vi que funcionam de fato (pra mim, pelo menos).

Então vamos lá.

Definindo o que é produtividade: produtividade está relacionada com resultado. E, em muitos casos, mas principalmente na área científica, mais trabalho não é igual a mais resultado. Por exemplo, se você trabalha passando notas escritas à mão para o computador, seu resultado são as cópias digitalizadas das notas, e quanto mais tempo você trabalhar mais notas você terá ao final. Agora, se você trabalha num laboratório, seus resultados são os resultados dos experimentos, e os dados que você consegue concluir deles. No entanto, quanto mais experimentos você faz, não necessariamente mais dados terá. O experimento pode ter sido lindamente desenhado, e mesmo assim dar resultados inconclusivos (quem nunca?). Isso não é culpa de um trabalho mal feito ou de incompetência do cientista (embora também possa ser).

Na ciência é assim, você nunca sabe se algo irá funcionar antes de testar. E mesmo quando não funciona, você teve trabalho pra testar aquilo. Então aqui está a diferença principal: mais trabalho não é diretamente proporcional a mais resultados na ciência. Infelizmente (ou felizmente) essa é uma característica imutável da ciência, e não adianta tentarmos melhorar a produtividade por aqui (seria um perigoso jogo de adivinhação que eu espero que ninguém jamais se proponha a fazer). Note que eu disse que não é diretamente proporcional, mas não podemos negar que, para termos resultados precisamos fazer experimentos (a não ser que você seja uma fraude que fabrica dados no laboratório). De certa maneira, se formos aprendendo com os experimentos que não funcionam e fizermos experimentos de maneira racional, eventualmente teremos mais resultados (embora eles não irão correlacionar diretamente com o trabalho que você teve).

Então aqui já dá pra concluir uma coisa: aumentar a produtividade não é trabalhar mais, é trabalhar melhor.

E aqui sim, temos muito espaço para melhoras!

Então vou dar a dica mais simples, fácil e mais eficaz para aumentar sua produtividade no laboratório (e fora dele também).

NÃO CONFIE NA SUA CABEÇA!

Pense no seu cérebro como um processador, não um HD! Ele serve pra racionar, não pra armazenar dados. Sua cabeça (a não ser que você seja um Sheldon da vida) não é boa pra guardar dados! Ela só consegue guardar os dados usados com mais frequência, e mesmo assim, só enquanto você os usa (eu não consigo lembrar o meu primeiro número de celular, por exemplo, mas naquela época, sabia de cor). E a gente cisma que vai conseguir guardar as coisas nela, só pra se desesperar quando não consegue lembrar depois. É normal esquecer, não fique se culpando por isso, seu cérebro simplesmente não funciona pra essas coisas, é um fato neurocientífico! Sabendo disso, tome as providências necessárias para isso parar de ocorrer e pare de se culpar.

Não, não é desse cérebro que eu estou falando!
Qual a solução? Armazene as coisas em dispositivos feitos para armazenar dados! Simples assim. No papel, no computador, onde você quiser, desde que possa acessar isso com facilidade depois.

No laboratório isso é crucial! Todo experimento deve ser descrito minuciosamente. Perder dados ou não se lembrar de detalhes é ter trabalhado à toa! É o total oposto da produtividade! Por isso, eu não posso estressar o suficiente! Escreva tudo, escreva até aquilo que você acha idiota e que com certeza vai se lembrar depois. Eu sei que ficamos tentados a escrever apenas o essencial (afinal a gente escreve muito e acaba dando preguiça, eu sei), mas resista! Seu futuro você vai te agradecer depois (seu orientador também heheheh).

Ok, e quando a gente tem que escrever coisas repetidas várias vezes? Tipo, um protocolo de PCR que você faz toda a semana? Ou as condições de uma transfecção? Reescrever algo que você já tem pode ser considerada uma tarefa de baixíssima produtividade (afinal é trabalho duplicado). Bom, você pode tentar fazer uma referência na sua nova nota, sobre a nota antiga onde vc seguiu todos os passos igualzinhos. Mas, 1) Isso só vale se for tudo igualzinho mesmo e 2) Isso só vale se essa nota for de fácil acesso mais tarde.

E aí vem um problema que, ao menos pra mim, faz perder muito tempo (e produtividade). Encontrar dados já armazenados.

Eu sempre tive muitas dúvidas sobre como documentar meu trabalho no laboratório. Eu já pensei em separar por projeto, mas aí, com vários projetos acontecendo ao mesmo tempo, ficava uma bagunça só. Já tentei fazer um caderno de rascunho, que eu levava pra bancada e escrevia em “real-time” e de qualquer jeito e depois passar a limpo num caderno mais organizado e limpinho. Mas vamos combinar, trabalho demais, preguiça, também não funcionava. Até que eu fiquei no mais simples. Escrever de forma cronológica, um dia por vez, tudo o que fiz no dia. Esse pra mim foi o que melhor funcionou, porque era simples e intuitivo, mas ainda tem uma grande falha. É muito difícil rastrear todos os detalhes do seu experimento, porque eles estão dispersos em vários dias e misturados com outros projetos. E a cada vez que a orientadora chamava pra discutir os dados era a mesma coisa, muito tempo perdido tentando “juntar" todos os pedacinhos dos experimentos que estavam espalhado em várias e várias páginas (enquanto isso você fica se sentindo uma idiota retardada). Isso me irritava, mas eu não sabia como resolver, e assim fiquei por mais de 7 anos.

Até o dia que tudo mudou, minha foi revolucionada (exagero? tô falando sério!). Notei que um dos meus colegas no laboratório aqui no Caltech vivia com o Evernote aberto. Se você não conhece o Evernote, ele é a síntese do arquive tudo, não memorize nada. É grátis, superfácil de usar, sincroniza com todos os seus aparelhos (computadores, celulares, tablets) e ainda oferece acesso online (caso vc esteja no computador do seu amigo, por exemplo). Eu adoro, já usava antes, mas nunca havia pensado em usá-lo no laboratório (idiota? concordo!).

Bom, perguntei pro meu amigo como ele usava o Evernote para organizar as notas do laboratório, e advinha a resposta? Simples, um caderno só pro lab, uma nota, um dia. Exatamente o que vinha fazendo há 7 anos, só que de uma maneira digital. A grande vantagem? Uma palavra, searchability (acho que essa palavra nem existe formalmente em inglês, quem dirá em português, mas seria algo como pesquisabilidade). Acabaram-se as horas procurando todos os detalhes de um experimento, basta usar a pesquisa do evernote (que diga-se de passagem, é ótima e intuitiva). Eu já tinha o hábito de dar códigos pro meus experimentos, tipo GM3 (Gradiente de Molt 3), mas mesmo que você não tenha esse hábito, já é muito mais fácil que procurar na mão. Além disso, você pode linkar notas, então por exemplo, se eu fiz uma transfecção no dia 10 de Junho, usando o DNA preparado no dia 10 de Maio eu copio o link da nota de 20 de Maio na nota do dia 10 de Junho, assim, se eu preciso rastrear os detalhes, fica muito mais fácil. Eu também posso fazer isso com protocolos que eu uso frequentemente, escrevo só uma vez, e linko todas as outras! Adeus trabalho dobrado!
Clica que aumenta!


O Evernote traz ainda mais vantagens! Eu tiro fotos dos meus experimentos e posso adicionar na nota. Se o seu experimento tem como resultado planilhas de excel, ou gráficos, é só anexar na nota! Quem compartilhar com o chefe? Também dá. Enfim, juro que não recebo um tostão do evernote (quem dera) mas ele é perfeito pra anotações de laboratório, e eu recomendo muito que você o teste (pro laboratório ou não).

Minha vida de laboratório é muito mais simples agora, eu perco geralmente menos de 5 minutos por dia escrevendo no meu caderno de laboratório, e tenho meus resultados sempre à mão em menos de 10 segundos! Nunca mais fiquei com preguiça de escrever meus experimentos, nunca mais perdi detalhes de experimentos, nem nunca mais fiz trabalho dobrado. Se isso não é um grande ganho de produtividade, eu não sei o que é!

Concluindo, ser mais produtivo não significa trabalhar mais, e sim melhor. Não confie no seu cérebro, ele não foi feito pra guardar informações, e se você insistir em fazer isso, só vai se decepcionar. Quanto mais rápido você compreender isso, melhor.

Essas dicas, apesar de voltadas a quem trabalha em laboratório não são exclusivas para esse público e mesmo que você não exatamente no mesmo contexto, pode aproveitar muito do que está escrito aqui (assim como eu li muitas coisas voltadas para quem trabalha em escritório e adaptei aqui).

Espero que vocês tenham gostado desse post mais diferentão. Por favor me dêem seu feedback caso vocês tenham vontade de ver mais posts dessa natureza por aqui. Eu não sou a pessoa mais produtiva do mundo, mas aprendi muitas dicas que podem melhorar esse aspecto, e posso falar mais aqui se vocês acharem interessante!


E me contem suas dicas pessoais de produtividade também! Eu adoraria saber o que funciona pra você!

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