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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Quem tem AIDS?

O Brasil é um país diferente no que se refere às siglas "virológicas", nós falamos português, mas usamos todas as siglas que se referem a vírus em inglês, ao contrário da maior parte do mundo. Na América Latina inteira o HIV é chamado de VIH, "virus de la inmunodeficiencia humana". Na França (onde, aliás, o vírus foi primeiramente identificado) é VIH, “le virus de l'immunodéficience humaine”. Em Portugal se usa, adivinhem só, VIH e não HIV. O Brasil deve ser o único país não falante de inglês onde a sigla oficial é HIV, mas ao invés da gente falar “Human Immunodeficiency Virus”, a gente diz “Vírus da Imunodeficiência Humana”, que daria VIH também! Enfim, é uma anomalia, não que isso me incomode (iria ser superestranho se de repente, todo mundo passasse a usar VIH em vez de HIV), mas é curioso, concorda?

O mesmo vale pra sigla AIDS. Ninguém (ou quase ninguém) no Brasil usa SIDA (embora a América Latina toda, França e Portugal usem). AIDS é “Adquired Imunodeficiency Sindrome”, mas a gente fala “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida”, e na hora de abreviar, AIDS.

E quem tem AIDS?

Muita gente acha que quem é portador do HIV, tem AIDS, mas nem sempre é assim. Na verdade a AIDS é a fase mais avançada da infecção pelo HIV, que em média ocorre só após 10 anos da infecção inicial (ou seja, depois que a pessoa “pegou” HIV). Nessa fase, o vírus, depois de anos se replicando na surdina, enquanto o sistema imune ia progressivamente e lentamente sendo “consumido”, aparece com força total, e o sistema imune não consegue mais dar conta dele. É nessa fase que surge a imunodeficiência em si, e com ela as chamadas infecções oportunistas, causadas por microrganismos ou vírus que geralmente não são capazes de causar doença em alguém com um sistema imune saudável.

Quem chega nessa fase tem AIDS. Geralmente é nessa fase que se inicia tradicionalmente o tratamento antirretroviral, o chamado coquetel. E com o tratamento, o vírus é novamente controlado, o sistema imune se recupera, e o indivíduo sai da fase de AIDS. Ele deixa de ter AIDS, mas ainda é portador do HIV. Deu pra entender a diferença?

Só quem está ali naquele quadradinho vermelho tem AIDS.
CD4 é um tipo de célula do sistema imune, que é  alvo do HIV (essa curva supercoloridona). E a infecção em si pode ser medida de várias maneiras, as mais comuns são a viremia (presença de vírus no sangue) ou a detecção do genoma do vírus no sangue, que é o RNA. Clica que aumenta. 
Essa figura veio da minha monografia, por favor, se forem copiar me peçam antes que eu posso dar a referência direitinho!


Logo, nem todo portador de HIV tem (ou melhor, está em) AIDS.

O canal Porta dos Fundos lançou uma série (Viral) que trata justamente de um cara que descobre que tem HIV (e sabe que “pegou” HIV há três meses). Ele vai atrás das suas ex-peguetes pra avisá-las. Às vezes, Beto (o cara que descobre que tem HIV) diz “Eu tenho AIDS”, mas o certo seria “Eu tenho HIV”, já que ele é aparentemente saudável. No segundo episódio também se comenta que ele está em tratamento com o coquetel, o que é um protocolo bem novo de tratamento (como eu disse, o tradicional é o tratamento se iniciar só quando o indivíduo está em AIDS).



O canal é excelente, todo mundo conhece. O objetivo dele é fazer humor, não ser cientificamente correto. A série é ótima pra dar visibilidade e consciência ao tema HIV/AIDS (ou seria VIH/SIDA?), o que já é ótimo.

Mesmo assim, o pessoal do porta dos fundos se preocupou em explicar nesse vídeo aqui (minuto 13:09) a controvérsia entre HIV e AIDS, e eu achei super legal da parte deles (e eu gosto de imaginar que foi só por causa do email que eu mandei pra eles duas semanas antes - #egocêntrica).




Então agora você sabe: quase ninguém tem AIDS, e quem tem, pode voltar a não ter. E você também sabe que o H de HIV (ou VIH) significa “Humano”. Mas isso vai ser assunto de outro post!

4 comentários:

  1. Nossa! Gostei muito! Muito atual (bem legal o paralelo com a série viral)! Vc sabe se aquele teste que ele fica passando para as ex-pequetes no serial é real? Até onde eu sabia o teste rápido era feito com uma gota de sangue (em algo até parecido com aquele "trequinho") e não saliva (não faz sentido na minha cabeça saliva).

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  2. É real sim. É um teste rápido (esse é o nome mesmo), ele detecta anticorpos contra o HIV, e na saliva de pacientes portadores, há bastante anticorpos contra o vírus. O tipo mais comum é o que usa uma gota de sangue ou soro (que também tem anticorpos), mas o de saliva também é eficaz. O furo é que no Brasil existe todo um protocolo para diagnóstico de HIV, só laboratórios credenciados podem fazer, tem que haver pelo menos um reteste em caso de positivo (mas geralmente são dois) usando outras metodologias (ELISA, Western Blot) e em caso de resultado positivo confirmado, a notícia deve ser dada por um psicólogo, então nesse ponto a série não é muito fiel.

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  3. Lu, adorei o post! Sério mesmo, muito esclarecedor!!!! Muita coisa que eu nem sabia...Parabéns :)

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