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domingo, 22 de janeiro de 2012

E a novela do H5N1 continua...

Eu? Eu me sinto ótima! De verdade! Muito bem. Nem mesmo uma  fungadinha... Nunca estive melhor...
Ontem, os cientistas que realizaram os estudos com o vírus influenza H5N1 em furões declararam que irão dar uma pausa de 60 dias nas pesquisas relacionadas a esse vírus (não entendeu nada? Leia aqui). Desde a imposição da NSABB de que os resultados fossem omitidos, uma onda de pânico se alastrou, e o debate se tornou extremamente polarizado. De um lado, ativistas de biossegurança defendendo a posição da NSABB e a interrupção da pesquisa e de outro os virologistas e microbiologistas defendendo a publicação dos resultados na íntegra. A pausa nos estudos tem como motivo dar à sociedade tempo para refletir nas implicações e riscos do estudo, e permitir a realização de uma conferência internacional a fim de discutir os prós e contras das publicações e da pesquisa.

Já expliquei como funciona a produção de conhecimento na ciência, e já dei um exemplo de como a omissão de dados pode ser prejudicial a esse processo e à sociedade. Uma epidemia de influenza é uma das ameaças potenciais mais perigosas à saúde pública, e ainda pouco se conhece sobre os mecanismos pelos quais o vírus se torna capaz de se transmitir via aérea (a natureza não publica artigos), e sobre outras características da infecção do influenza (como por exemplo, como ele ganha a capacidade de se transmitir à humanos).

Os dados gerados pelos pesquisadores dos Países Baixos podem ser vitais num futuro próximo (como na iminência de uma pandemia, por exemplo), por isso, quanto mais divulgados eles sejam, melhor será para a humanidade, pois mais e mais pessoas podem partir desses dados existentes e complementar e acumular o conhecimento que temos sobre o vírus.

Teoricamente (e friso o teoricamente, pois não há absolutamente nenhum indício real de que isso é possível) o alarmismo relacionado à pesquisa se dá por dois motivos: a possibilidade de esses dados serem usados por bioterroristas, ou um vazamento do vírus do laboratório, em ambos os casos, levando a uma pandemia de H5N1 altamente patogênico.

Já discuti anteriormente porque dificilmente esses dados ajudariam bioterroristas, pois há formas muito mais simples de se criar armas biológicas com os dados já existentes na literatura. E vamos combinar ninguém espalhou tanto terror quanto a NSABB quando começou essa história toda (ou não estaríamos tendo essa discussão, certo?).

Sobre um possível vazamento, comentei antes que concordava que de fato esse vírus deveria ser estudado em laboratórios com alto nível de biossegurança, como P3 ou P4 (os dois níveis mais altos de biossegurança existentes), que contam com uma complexa infraestrutura a fim de evitar que o manipulador se contamine com o material que está sendo estudado (nesse caso, o vírus) e a fim de impedir um escape desse vírus para o ambiente. Descobri que, (adivinhem só!) os estudos foram todos conduzidos em laboratórios P3, ou seja, essa cautela já foi tomada. Se por acaso chegar-se à conclusão de que os estudos devem ser realizados em laboratórios P4, que seja, mas que a pesquisa seja levada adiante.


E muito se especula (e friso o especula) que esse vírus tenha uma letalidade de 50%, já que 50% das pessoas que deram entrada nos hospitais infectadas pelo H5N1 morreram. Mas, pense comigo... Se você fica levemente gripado, você vai ao hospital? Às vezes não vamos nem quando estamos seriamente gripados! O fato de a pessoa ter sido internada já é um indício que o seu caso era mais grave que o comum, e talvez calcular a letalidade de um vírus baseado no número de pessoas que deram entrada em hospitais seja um método tendencioso. Então, pra calcular-se da maneira correta, teríamos que dividir o número total de mortes causadas pelo vírus pelo número total de pessoas infectadas. Tudo bem, assumo que é impossível calcular o número total de pessoas infectadas... Mas estudos demonstraram que há pessoas que possuem anticorpos contra o H5N1 (uma prova de que essas pessoas tiveram contato com o vírus) e estão por aí felizes, contentes e, principalmente, vivas. O trabalho analisou 800 trabalhadores rurais da Tailândia, e chegou à conclusão que 9% deles tinham anticorpos contra o H5N1. É claro que, sendo um vírus de aves que dificilmente infecta humanos, esse número não seria retumbantemente enorme (provavelmente só aqueles que trabalham diretamente com aves tiveram uma infecção com o H5N1 e desenvolveram anticorpos), mas só essa evidência já mostra como esse cálculo da letalidade está errado. Outro estudo com 8500 candidatos (de diferentes origens) revelou que 1,3% tinham anticorpos contra o H5N1. E mais uma vez lembro, sabemos que o vírus é letal em furões, não há como descobrir (a não ser que Dona Natureza nos apronte uma) se ele é letal em humanos.

O jeito agora é esperar pelo fim da pausa e a conclusão da conferência para sabermos se a ciência perdeu ou ganhou essa, e se o primeiro caso de censura da ciência moderna vai se concretizar ou não. Uma coisa é certa, os dois lados irão expor suas idéias. Os cientistas apresentarão os fatos (pois é apenas nisso que eles acreditam) sem menosprezar ou aumentar qualquer evidência. Mas será que os ativistas de biossegurança ouvirão os fatos?

Por Luiza Montenegro Mendonça. Sim, desisti do alinhamento justificado, o blogger tá de brincadeira comigo...

A íntegra da declaração dos autores do estudo pode ser vista aqui.

Cartoon retirado daqui.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Renovando a esperança em uma vacina contra o HIV

Belíssima representação da partícula viral do HIV feita em vidro pelo artista Luke Jerram.
Eu quero uma (a escultura, não o vírus, cruzes!).

No post passado eu comentei que havia saído um artigo que renovou as esperanças sobre uma vacina contra o HIV, pois então...

Cientistas americanos publicaram dia 4 desse mês na revista Nature, resultados de uma nova vacina experimental feita em macacos. A vacina foi desenvolvida contra o vírus da imunodeficiência símia (SIV), um primo do HIV que infecta primatas. A vacina desenvolvida demonstrou alta eficiência de proteção, acima de 80%, o que renovou a confiança dos cientistas de encontrar os elementos certos para uma vacina eficiente contra o HIV.

O estudo foi feito em macacos rhesus, utilizando-se uma vacina de DNA vetorizado (leia aqui pra entender o que é) com sequências de duas proteínas do SIV chamadas GagPol e Env. Os autores testaram diversas combinações de vetores (Ad35, Ad26, MVA e até DNA não vetorizado) sempre no mesmo regime de duas doses, conhecido como prime-boost, onde a primeira dose é a dose de estímulo e a segunda é um reforço. Eles vacinaram macacos rhesus e depois de seis meses verificaram se a vacina havia induzido proteção através de um desafio com SIV, ou seja, eles propositalmente injetaram vírus intraretalmente nos macacos (não deve ser muito agradável, nem pros macacos nem pra quem está fazendo as inoculações, mas é uma via mais próxima da via natural de infecção). Eles realizaram diversos desafios (até 6, pobres macacos) e após cada um deles, verificaram quantos animais foram ou não foram infectados. Assim, comparando os animais vacinados com os controles não-vacinados, eles chegaram ao percentual de >80% de proteção, em três das combinações prime-boost testadas: DNA/MVA, Ad26/MVA e MVA/Ad26.

ResearchBlogging.org
Figura retirada do artigo. O eixo y mostra a porcentagem de animais não-infectados e o eixo x o número de desafios.  Note que com apenas um desafio a maioria dos macacos controle (Sham) se tornam infectados, enquanto que aqueles vacinados com a combinação DNA/MVA, Ad26/MVA e MVA/Ad26 precisam de muito mais desafios para serem infectados (alguns continuam não-infectados mesmo ao final dos seis desafios).
Um ponto importante a salientar é que as sequências de SIV usadas na vacina eram provenientes de um uma variante de SIV chamada de SIVsm, mas o desafio foi realizado com outra variante, mais virulenta, denominada SIVmac, e mesmo assim a vacina foi protetora. Isso é importante, pois o HIV é muito variável, e é certo que as sequências contidas numa possível vacina serão de um vírus distinto daquele que um indivíduo vacinado irá “topar” durante sua vida.

Apesar de serem ótimas notícias, ainda precisamos ter cautela. Muitas vacinas que tiveram sucesso em primatas falharam quando testadas em humanos. Além disso, há estudos demonstrando que talvez anticorpos contra o Ad26 e Ad35 não sejam tão raros assim na espécie humana. Mesmo tendo alta eficiência de proteção, após os seis desafios, a maioria dos macacos adquiriu a infecção. Mas temos mais motivos para ter esperança. Os macacos que foram vacinados e que ficaram infectados após os desafios apresentavam uma replicação viral menor, quando comparado com o controle não vacinado, indicando que a infecção viral estava de alguma forma sendo controlada pelo sistema imune. Havia vírus infectando o macaco, mas o número de partículas virais era até 100 vezes menor do que em um macaco não vacinado. E outros sinais apontavam para um controle imune eficiente da infecção, como maiores níveis de anticorpos neutralizantes e maior número de células T (células do sistema imune) específicas contra o vírus.

Além de elucidar os parâmetros de um regime eficiente de vacinação, esse estudo também dá mais pistas sobre quais são as sequências do vírus que devem entrar na vacina. O HIV (e o SIV também) possui 15 proteínas distintas, e apesar de muita especulação sobre quais seriam as proteínas mais importantes para incluir numa vacina, nenhum estudo até o momento havia encontrado uma combinação que trouxesse uma eficiência de proteção tão alta. No caso, o estudo conclui que uma proteína essencial para haver proteção é a proteína Env, de envelope, que como o nome sugere, é uma proteína que se encontra na parte externa da partícula viral (seriam as bolinhas agrupadas em três na escultura que abre o post). A inclusão da sequência de Env na vacina testada aumentou de 29% para 80% a eficiência de proteção. Essa informação pode ser valiosa no desenvolvimento de futuras vacinas.

Como vocês podem notar, não é à toa que os cientistas ficaram animados com esses resultados. Termino o post com o parágrafo final do artigo, que resume muito bem (melhor do que eu poderia resumir) a sua importância:

Em resumo, nossos dados demonstram a prova de conceito de que a vacinação pode proteger contra a aquisição de SIV nos desafios feitos em macacos rhesus. (…) Esses achados, junto com as observações de requerimento critico de Env e os diversos correlatos de proteção imunológica contra a aquisição da infecção e seu controle, pavimentam novos caminhos na direção do desenvolvimento de uma vacina contra o HIV.


Barouch, D., Liu, J., Li, H., Maxfield, L., Abbink, P., Lynch, D., Iampietro, M., SanMiguel, A., Seaman, M., Ferrari, G., Forthal, D., Ourmanov, I., Hirsch, V., Carville, A., Mansfield, K., Stablein, D., Pau, M., Schuitemaker, H., Sadoff, J., Billings, E., Rao, M., Robb, M., Kim, J., Marovich, M., Goudsmit, J., & Michael, N. (2012). Vaccine protection against acquisition of neutralization-resistant SIV challenges in rhesus monkeys Nature DOI: 10.1038/nature10766

Por Luiza Montenegro Mendonça, muito orgulhosa pelo seu primeiro post com o selo do Research Blogging!


Luke Jerram é um artista que cria esculturas inspiradas em patógenos, no seu site há fotos de diversas outras esculturas (outras de HIV inclusive), que realmente valem a penas ser vistas. A ilustração desse post foi retirada de lá.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Porque (ainda) não existe vacina contra o HIV?


Infelizmente, até o momento, todos os esforços de se desenvolver uma vacina contra o HIV, foram um fracasso, tanto por não apresentarem nenhuma proteção ou por gerarem uma eficiência de proteção insuficiente (próxima a 30%).

A dificuldade em se desenvolver uma vacina contra o HIV deriva de diversos fatores. O vírus sofre mutações muito rapidamente. Isso faz com que o vírus seja muito variável e dificulta o fato de se encontrar uma vacina que ofereça proteção contra todos os vírus circulantes. Além disso, o HIV é um retrovírus, o que significa que ele insere seu genoma viral no genoma da célula. Uma vez lá, a célula não tem como discernir entre DNA viral e DNA próprio. Sendo assim, são estabelecidos reservatórios virais, células onde o vírus se esconde, e onde a vacina não pode atuar. Para finalizar, ainda não há um consenso sobre quais são as variáveis imunológicas desejáveis para uma vacina. Lembre-se que o HIV infecta células do sistema imune, as mesmas células que uma vacina estimula a fim de se criar um estado de proteção que impedirá futuras infecções. Sendo assim, ao estimular essas células, a vacina pode aumentar o número de células alvo do HIV e facilitar uma infecção, ao invés do contrário esperado. Por conta disso, uma boa vacina deve estimular tanto as células de defesa quanto induzir a produção de anticorpos, e esses anticorpos podem inclusive se ligar ao vírus e impedir que ele entre nas células, impedindo a formação dos reservatórios virais. Esses anticorpos são denominados anticorpos neutralizantes, pois conseguem neutralizar a infecção ao impedir a entrada do vírus na célula.

Devido à gravidade da doença causada pelo HIV, as estratégias comuns de desenvolvimento de vacinas, como o uso de vírus inteiro inativado ou atenuado são evitadas por questões de biossegurança. Não é difícil entender, já que, na possibilidade de uma inativação incompleta ou de uma reversão de fenótipo (se o vírus deixar de ser atenuado e se tornar patogênico), pessoas que tomaram a vacina para se proteger, se tornariam infectadas (nada legal). Por isso, as vacinas contra o HIV baseiam-se em novas estratégias de vacinação, como as vacinas de subunidades (onde ao invés de um vírus inteiro se utilizam apenas algumas proteínas virais) e as vacinas de DNA. As vacinas de DNA se encontram numa interseção entre vacina e terapia gênica e podem ser feitas apenas com o DNA ou com o DNA vetorizado numa partícula viral (da mesma forma como explicado aqui). Nessa estratégia é utilizado um vírus que contém a sequência de DNA que codificam uma ou mais proteínas do HIV (nesse caso, mas pode ser sequência de qualquer vírus/organismo contra o qual se deseja fazer uma vacina). O vírus entra na célula e expressa as proteínas de interesse, e o organismo desenvolve uma resposta imunológica contra essas proteínas (o que, com sorte, trará imunidade frente a uma infecção pelo HIV, que possui essas proteínas).

Vacinas desse tipo já foram testadas em humanos (o famoso STEP study), mas o desenho da vacina não foi feliz, pois usava como vetor um adenovírus humano (o Adenovírus subtipo 5) para o qual grande parte da população já possuía anticorpos neutralizantes. O que aconteceu é que na maior parte dos testados, o vetor da vacina nem chegou a entrar em célula nenhuma (muito menos expressar nenhum gene do HIV), porque foi barrado pelos anticorpos neutralizantes contra o adenovírus 5. A vacina foi um fracasso.

Desde então, vários vetores passaram a ser avaliados a fim de se descobrir os mais aptos a uma vacina de DNA vetorizado para humanos. Alguns são vírus animais, como poxvírus de aves e adenovírus de chimpanzés (não se espera que existam muitas pessoas com anticorpos contra vírus de animais, certo?). Outros são vírus humanos relativamente raros, como adenovírus subtipos 26 e 35 (já que são raros, poucos tiveram contatos com eles, logo não devem haver muitas pessoas com anticorpos também). Há ainda vetores baseados em vírus que já foram erradicados, como o MVA, que é um vírus vaccinia (causador da varíola) vacinal altamente atenuado que foi usado no final da campanha de vacinação contra varíola na Alemanha. Bom, a varíola está erradicada no mundo, e a vacinação suspensa (no Brasil foi suspensa em 1980). Logo, não se espera que haja anticorpos na população (pelo menos os mais jovens) contra o vaccinia.

Devido aos fracassos sucessivos em se desenvolver uma vacina contra o HIV, a comunidade científica estava desacreditada. Mas um novo estudo que saiu dia 4 desse mês na revista Nature renovou as esperanças dos cientistas numa vacina contra o HIV. E isso será abordado num próximo post.

Por Luiza Montenegro Mendonça.


Para uma mais informações sobre porque ainda não temos uma vacina contra o HIV recomendo o ótimo post do blog "A Rainha Vermelha" - Quem está escondendo a vacina contra a AIDS. Lá tem ótimas ilustrações da campanha contra o HIV também.

Ilustração retirada daqui.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Terapia Gênica - A nova fronteira da medicina



O termo já ganhou fama, Terapia Gênica. E com razão. É uma ferramenta poderosa e promissora em diversas áreas da ciência.

Terapia Gênica se refere à terapia onde se utiliza um determinado gene para curar uma doença ou induzir uma determinada resposta (como numa vacina). Por exemplo, a fibrose cística é uma doença de fundo genético, ou seja, a origem da doença está no gene que dá origem a um transportador iônico chamado CFTR (Cystic Fibrosis Transmembrane conductance Regulator, ou Regulador de Condutância Transmembranar da Fibrose Cística). Nos pacientes, esse gene é defeituoso, e dá origem a um transportador defeituoso. Havendo um gene “correto” da CFTR, esse problema seria resolvido, e o paciente seria curado.

Identificar o gene importante para curar determinada doença/vacina é a parte mais fácil (e às vezes nem é tão fácil assim). Colocar o gene de interesse dentro da célula do paciente e conseguir a sua expressão a contento é que é complicado.

Primeiro temos que resolver a questão: Como colocar um DNA dentro de uma célula? No laboratório, numa cultura de células, isso é fácil, trivial até, mas em seres vivos complexos nem tanto. Existem algumas alternativas: usar o DNA sozinho (ou nu, como se costuma chamar), complexar ele com moléculas que tenham a capacidade de se fundir com as membranas nas células, ou colocar ele dentro de um vírus. Isso mesmo, os vírus são mestres em transferir seu material genético para células hospedeiras, o que faz deles as melhores ferramentas para isso.

Os vírus usados em terapia gênica são modificados, se tornando não infecciosos (não se replicam dentro da célula) e não patogênicos (não causam doença), eles apenas conseguem transferir o gene de interesse para a célula. Esses vírus são chamados de vetores, um nome muito apropriado, já que vector em latim significa “aquele que entrega”. Uma vez dentro da célula alvo o DNA é expresso, dando origem à(s) proteína(s) de interesse. Mas geralmente não por muito tempo. Acontece que as nossas células estão programadas para combater materiais genéticos estranhos (afinal, elas aprenderam ao longo de muitos milênios de infecção a se precaver contra vírus), e esse material dura muito pouco dentro da célula, antes de ser degradado pelo seu sistema de defesa. Além disso, o vírus não se replica dentro da célula (nem o gene dentro do vírus).
Uma alternativa para solucionar esse problema é usar como vetores vírus que além de entregar esse gene de interesse para às células-alvo integrem esse gene no DNA da própria célula, sendo assim, o DNA da terapia vai se comportar como se fosse o DNA da célula, sendo inclusive duplicado toda vez que o DNA da célula for duplicado. No entanto, isso pode gerar vários problemas. Imagine se esse DNA acaba parando dentro de um gene importante? Esse gene importante não vai mais funcionar como deveria (ele será “truncado”). Esse gene pode se integrar dentro de um gene repressor de tumores, por exemplo, e sem a repressão, isso pode levar ao desenvolvimento de câncer. Esse deve ser um problema a ser solucionado (e está sendo) antes de considerarmos o uso desses vetores em terapias gênicas.

Embora ainda precoce, a terapia gênica têm muito potencial. Ela pode ser utilizada para curar doenças de fundo genético, seja ela causada pela não-expressão de um gene, sua expressão descontrolada, ou por um gene que gere uma proteína defeituosa/anormal. Pode também ser usada para curar doenças infecciosas, como a AIDS. A terapia gênica pode ainda ser utilizada para produção de uma nova classe de vacinas, ou até mesmo para terapias que substituam vacinas. É claro que a teoria é sempre linda, mas a realidade de fato sempre têm mais nuances e facetas. Por isso, todos os estudos utilizando terapia gênica ainda são preliminares, e poucos foram realizados em humanos. Todas as consequências de se inserir um DNA estranho (e vírus) num organismos estão sendo estudadas, a fim de que se possa restringir ao máximo qualquer efeito danoso desse procedimento.

Mas com o tempo, a tendência é que as limitações sejam contornadas e mais e mais estudos entrem em fase clínica (com experimentos em humanos), acumulando conhecimento. E uma vez que essa técnica seja totalmente dominada, uma mudança de paradigma pode ser esperada. A terapia gênica promete revolucionar a medicina, como fizeram os antibióticos, a anestesia e as vacinas antes dela.


Por Luiza Montenegro Mendonça.
Ilustração retirada daqui.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O primeiro caso de censura da ciência moderna



Lembram-se que eu disse (no post anterior, olha aqui) que havia um episódio que estava tirando o sono da comunidade científica?

Pois bem, dia 20 de Dezembro uma história que vinha se desenrolando há quase dois meses chegou ao seu desfecho.

Cientistas dos Países Baixos (sabiam que a Holanda é só uma das províncias dos Países Baixos?) realizaram um experimento longo e demorado, porém simples, em furões. Eles estudavam o vírus influenza subtipo H5N1. O furão é um bom modelo para se estudar a infecção por influenza, porque eles apresentam sintomas e reações semelhantes à que nós humanos temos quando estamos gripados, além de serem fofinhos. O experimento consistia em infectar um ou mais furões e deixar o vírus fazendo a festa replicando livremente, recolher os novos vírus produzidos e passando de um furão a outro durante um longo período de tempo até notarem que o vírus repentinamente tinha se tornado mais transmissível que antes (um sinal de que algo havia mudado no vírus original). Em virologia isso se chama treinamento viral, e é feito justamente quando se deseja identificar quais mutações genéticas conferem a um determinado vírus uma nova característica. Nesse caso o treinamento foi feito a fim de descobrir quais mutações tornavam o vírus transmissível pelo ar (e não através de contato íntimo, como o que ocorria antes). Quando eles analisaram o vírus resultante e comparam com o vírus original, eles notaram que houve (apenas) cinco mutações em dois genes virais, e que essas mutações eram responsáveis pela nova característica desse vírus, a transmissão aérea.

Esses resultados podem ter desdobramentos muito favoráveis. Podemos monitorar o H5N1 circulante na natureza e acompanhar em que estágio de mutação ele se encontra, possibilitando uma ação preventiva ANTES que o vírus se torne plenamente transmissível pelo ar. Podemos desenvolver drogas, kits diagnósticos e talvez até vacinas para esses vírus, se fosse necessário.

O H5N1 geralmente infecta aves com uma alta letalidade (aproximadamente 50%), e há casos de infecção em humanos que tiveram contato com aves (poucos, porém também com alta letalidade). No entanto esse vírus não consegue se transmitir bem de humano a humano.

E aí está tudo o que é necessário para um alarmismo (infundado). A NSABB (National Science Advisory Board for Biosecurity ou Conselho Consultivo Científico de Biossegurança dos EUA) solicitou que o artigo não fosse publicado em seu estado atual, e que o mesmo fosse reescrito, omitindo dados (incluindo a sequência genética do vírus mutado), a fim de não se tornar uma receita para o bioterrorismo. Afinal, tínhamos um vírus altamente letal (H5N1) que era agora capaz de transmitir por via aérea! Se essa informação caísse em mãos erradas, poderíamos ter a maior pandemia de influenza da história! Exemplos de matérias apocalípticas sobre esse episódio podem ser vistos aqui e aqui.

Agora, vamos aos fatos (afinal, esclarecer e informar cientificamente o público foram justamente alguns dos motivos que me levaram a criar esse blog).

Sabemos que o H5N1 original (ou selvagem, como é a designação usual em ciência) é altamente letal em aves, humanos e furões. Sabemos que o H5N1 mutado é altamente letal em furões. Não temos como saber se o vírus mutado é letal em humanos (alguém se voluntaria a testar?). Pode até ser, mas isso iria contra algumas coisas que já aprendemos em virologia até o momento. De fato, passar o vírus sequencialmente em uma espécie que não é o hospedeiro natural DIMINUI a virulência (letalidade) desse vírus ao seu hospedeiro original. Pra dizer a verdade, essa é inclusive uma estratégia que já foi muito usada para desenvolver vacinas virais atenuadas (onde o vírus continua viável, mas não é capaz de causar doença, e de quebra, ainda te dá imunidade contra o vírus selvagem que poderia te deixar terrivelmente doente, com seqüelas ou até te matar). A vacina Sabin, contra poliomelite, é um exemplo. Ela foi passada sequencialmente em cultura de células de rim de macaco (logo, não humano), e isso deu um trabalho ao vírus que precisou se adaptar ao novo ambiente, até o vírus adquirir mutações que permitiam a passagem eficiente em células de macaco. Só que isso teve um preço pro vírus, em troca ele perdeu a patogenicidade (capacidade de causar doença) em humanos. Outras vacinas foram desenvolvidas assim, como contra a febre amarela, sarampo e caxumba (feitas em ovos embrionados). Sendo assim, tendo como base a experiência humana anterior com passagem viral sequencial em hospedeiros animais, a letalidade para humanos desse vírus adaptado a furões deve ser menor que a do vírus selvagem (embora nunca possamos testar isso).

Outra coisa. Eu até concordo que esse vírus deva ser armazenado e manipulado em um local com alto nível de biossegurança, mas não há como justificar que a publicação da sequência genética dele seja um risco. Bioterroristas dificilmente teriam como “montar” um vírus inteirinho a partir de sua sequência genética (seu genoma), isso é extremamente complicado e exige pessoal muito qualificado, equipamentos de ponta e reagentes caríssimos, que dificilmente estariam ao alcance de bioterroristas (muito pesquisador bom gostaria de ter isso ao seu alcance e não tem!). Além disso, há genomas muito mais perigosos que já foram publicados, como o influenza H1N1 que causou a pandemia de 1918 (o nome gripe espanhola é familiar?), o ebola, o vírus da varíola e por aí vai... Se eles quisessem fazer um influenza virulento e transmissível eles poderiam simplesmente fazer passagens seqüenciais em furões. Melhor ainda, eles poderiam simplesmente fazer passagens seqüenciais em humanos (bioterroristas têm bioética?), até surgir um mutante garantidamente letal e altamente transmissível em humanos (afinal, o vírus se adaptou em humanos). E isso seria muito mais simples, fácil e barato que montar um vírus a partir do seu genoma, ou inserir as mutações necessárias para isso (quem já teve que fazer mutagênese sabe o quão complicado isso é).

E mais importante. Pelo post anterior ficou relativamente claro a importância de termos acesso aos deltalhes experimentais e à todos os resultados de qualquer artigo. Só assim, os resultados podem ser replicados por outros grupos, confirmados e aprofundados (geração de drogas, vacinas etc). Essa censura aos resultados engessa a progressão da ciência e atrasa o desenvolvimento de novas armas contra esse vírus. E a natureza, a maior bioterrorista de todas e a melhor geradora de mutantes virais e pandemias não espera.

O corpo editorial da revista Nature e Science, para onde os dois artigos resultantes do estudo foram submetidos, pronunciaram-se repudiando a censura. Porém, os autores relutantemente aceitaram reescrever o artigo, omitindo os dados solicitados pela NSABB (embora eu duvide que eles tivessem tido muita escolha).

A apreensão da comunidade científica se dá por isso. Esse é o primeiro caso de censura à uma publicação científica. Mas quem pode garantir ser o último?


Por Luiza Montenegro Mendonça

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Verdade, ciência e ME/CFS

Uma vez um professor meu de filosofia (cujo nome nem lembro mais) perguntou à minha turma de ensino médio: Onde nasce a verdade?

Depois de muito debater (e não chegar a lugar nenhum, diga-se de passagem), o professor respondeu: A verdade nasce na discussão científica. Grupos de pesquisa experimentam exaustivamente (e repetidamente) até terem certeza de que tal resultado é real. E ali, uma verdade nasce. O HIV é o agente causador da AIDS, é um exemplo. É uma verdade reconhecida. E nasceu através da prática do método científico.


Hoje em dia, a ciência funciona mais ou menos assim. Um grupo de pesquisa tem uma hipótese, imagina os experimentos e controles que precisa fazer pra testar essa hipótese, realiza esses experimentos, analisa e interpreta os resultados e chega à conclusão se sua hipótese é verdadeira ou não (ambos os casos são válidos, e a ciência andaria muito mais rápido se mais artigos com resultados negativos fossem publicados). Ao final, redige-se um artigo científico com a hipótese (e da onde ela surgiu), os métodos experimentais (exaustivamente detalhados), os experimentos, seus resultados e a conclusão. Esse artigo é então enviado a uma revista científica que irá analisá-lo e decidir se ele deve ser publicado como está, se há a necessidade de algum experimento adicional, ou se simplesmente ele não deve ser publicado (por não ter alcançado qualidade científica para tal).


Um artigo científico não termina com sua publicação numa revista (a ciência não acaba aí!). Ele apenas começa ali. A partir desse momento, aqueles resultados serão postos à prova por outros grupos de pesquisa a fim de replicá-los e provar que os resultados são válidos. E é bom que assim seja.


Recentemente, a renomada revista Science publicou a retratação de um artigo original de 2009 que havia primeiramente identificado um novo vírus como o agente causador da encefalomielite miálgica (mais conhecida como síndrome da fatiga crônica, ou ME/CFS, de Myalgic Encephalomyelitis/Chronic Fatigue Syndrome). A ME/CSF é uma doença altamente debilitante caracterizada por dores intensas, náuseas, lapsos de memória e outros sintomas, cujo agente etiológico continua desconhecido e foi por muito tempo praticamente ignorada pelo CDC (Center for Disease Control - Centro de Controle de Doenças dos EUA), que chegou inclusive a considerar que a doença tinha causa psicológica e era relacionada  à abusos e traumas sofridos na infância. Devido a isso, tanto os pacientes de ME/CSF, quanto a pesquisa sobre a doença, nunca foram levados muito a sério.

Então, com o artigo de 2009, pesquisadores isolaram um novo retrovírus de pacientes com ME/CSF, o XMRV (sigla para Xenotropic Murine Leukemia Virus related Virus, traduzindo, se isso fosse possível, ficaria, vírus relacionado ao vírus xenotrópico da leucemia murina) e relacionaram o vírus como possível causador da doença. Finalmente prova de que a ME/CSF era uma doença com causas virais e não simplesmente psicológicas. No congresso anual sobre Retrovírus do Cold Spring Harbor Laboratories (fundado pelo prêmio Nobel James Watson, o mesmo da dupla hélice de DNA) em 2010, duas sessões foram dedicadas apenas para discussão desse novo vírus, tamanha a repercussão dessa descoberta (eu estava lá \o/). No entanto, com o passar do tempo, outros grupos tentaram replicar os resultados originais, sem sucesso. Nesse mesmo congresso alguns grupos já começaram a discutir a fim de tentar entender porque as coisas não funcionavam como deveriam. Cientistas são assim, eles demoram muito e fazem muitos testes antes de afirmar qualquer coisa com veemência. Ainda bem. Por isso na época ainda se discutiam diferenças nos métodos usados por diferentes grupos, possíveis diferenças nas populações de pacientes e por aí vai...


Porém, mais tarde foi-se descobrindo falhas nos métodos e até mesmo omissão de dados relevantes (como o tratamento com uma droga que não estava previamente descrita nos métodos). E a coisa começou a desmoronar. Primeiramente, houve uma retratação parcial de alguns resultados do artigo original, até que finalmente a Science retratou totalmente o artigo com a nota:
A Science perdeu sua confiança no artigo e na validade de suas conclusões. (...) Nós estamos editorialmente retratando o artigo. Nós lamentamos o tempo e recurso que a comunidade científica tem devotado à tentativas infrutíferas de replicar esses resultados.
Esse episódio retrata bem a necessidade de uma comunicação científica transparente e minuciosamente detalhada, a fim de que episódios como esse não se repitam. E para que sempre possamos confiar no peer-review, ou revisão pelos pares, para que a “verdade” possa ser retestada até que se prove ser verdade de fato (ou não). Todo e qualquer interessado deve ter acesso a qualquer detalhe e resultado, a fim de que esse sistema continue funcionando brilhantemente como tem feito até hoje.

Como o virologista Vincent Racaniello costuma dizer: Trust science, not scientists. Ou, confie na ciência, não nos cientistas. A ciência sempre dará um jeito para que a verdade venha à tona, mais cedo ou mais tarde.

E é por isso que um outro episódio vem preocupando a comunidade científica, mas isso ficará pra outro post.




Maiores informações sobre a história da ME/CSF - Chronic Fatigue Syndrome and the CDC: A Long, Tangled Tale.

Ilustração retirada daqui.


Por Luiza Montenegro Mendonça.

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